Sempre pensei que seria mais doloroso. Quase não doeu. Só uma sensação de frio, leveza, dormência.
Demência da minha parte. Como pude levar um desconhecido pra dentro da minha casa?
Eu sei o porquê: desejo. Queria transar, ele parecia tão interessado em mim. Era tão bonito... Deve ser viado, senão teria me comido antes de matar. Ou inteligente demais pra isso.
No bar, tanto carinho e atenção... Eu estava me sentindo tão bem, tão amada...
No caminho, tantos beijos dentro do carro. Os ombros largos, os braços fortes...
A música, aquela que eu sempre quis dançar com um amor. Sempre quis dançar com “O Amor”. Ele era tão cheiroso...
Mal senti as facadas. Só senti mesmo a terceira. Não doeu, senti uma ardência na barriga e o calor do sangue escorrendo. Ele ficou me olhando morrer.
Será que ele se excitou comigo? Por que se masturbou?
É estranho morrer... Não senti dor... a minha barriga ardia e esquentava, o mundo foi ficando distante... Respirar ficou difícil... Me incomodou a sensação de frio, mas logo passou e me senti leve, como se estivesse flutuando, carregada por um anjo... E ele lá, sentado me olhando morrer.
Eu aqui, como uma fantasma, vendo tudo o que se passa. O meu matador, o policial, as pessoas na porta do meu apartamento, me olhando morta no chão. Morrer é sempre assim? Pra onde vou? Ou vou ficar aqui olhando meu corpo o tempo inteiro, olhando as pessoas entrarem e saírem do meu apartamento?
Eu sou burra, não devia ter levado ele para o meu apartamento!
Mas queria transar. Há quanto tempo não transo? Um ano? Mais? Ele era tão bonito... Mas será que não gosta de mulher? Não, ele se masturbou para mim...
Ele olhava nos meus olhos enquanto eu falava, prestando uma atenção que ninguém nunca prestou. O Vinícius não olhava pra mim quando falava com ele. Nem ligava pro que eu dizia. Já foi tarde.
Ele me beijou tão gostoso no carro... Mordeu de leve minha orelha...
Afagava meus cabelos enquanto a gente dançava minha música...
Três facadas. Senti a terceira. Ardeu, senti o calor do sangue escorrendo. Ele sentou no sofá. Bruno? O Bruno sentou no sofá. Senti muito frio, quase uma dor de frio. Sangrei até morrer.
Minha cabeça ficou leve. Está até agora. Estou flutuando?
O policial foi embora, meu corpo ainda está ali. Meu corpo ou eu? Eu estou aqui e meu corpo lá. Eu estou deitada no chão e flutuando aqui. Não estou flutuando.
Porque trouxe o Bruno aqui? Imbecil!
Quero transar com ele. Quero ele em cima de mim. Do corpo morto, de mim aqui flutuando. Não estou boiando.
Ele me achou gostosa. Acho. Gostosa como uma torta de chocolate.
Sua língua estava na minha boca. Gostosa. Vodca com coca-cola. Ele pegou nos meus seios. Eu apertei a nuca dele. No carro, na porta do apartamento, na cama. Não, não na cama. Não transamos.
Tão bom dançar com ele. As facadas na minha barriga, ardendo feito pimenta quente como o sangue que escorria pela minha barriga esfaqueada como uma carne morta por alguém que não gosta e esfaqueia a mulher que leva pra casa dela.
Bruno tão bonito e masturbador...
Meu corpo ali mais não. Eu aqui flutuando. Não, não estou.... Estou flutuando...
Sou estúpida! Eu morri...
O Bruno veio até aqui e me matou. Quero transar com o Vinícius e o Bruno foi embora com a faca na minha barriga, Três vezes. Onde ele está agora?
Beijei sua boca com vodca e coca-cola e limão com cerveja. Não gostei da língua dele. Ele ia transar comigo, no carro ou na porta do apartamento, com a faca na minha barriga e sangrando um sangue quente que escorria pela minha roupa azul e esquentava a música que eu escutei com meu amor. Três vezes.
Estou flutuando...